quarta-feira, 19 de agosto de 2015

VINTE ANOS DE ASSENTAMENTO SAFRA. O QUE PETROLÂNDIA PODE APRENDER COM O MOVIMENTO DOS SEM TERRA?

Foto: Daniel Filho

Essa semana o assentamento Safra Gregório Ramos, localizado no município de Santa Maria da Boa Vista (PE), comemorou seu vigésimo 20º aniversário de atividade do assentamento.
Contando com a presença de figuras políticas estaduais e nacionais como: coordenador nacional do Movimento dos Sem Terra (MST), Jaime Amorim; vice-líder do governo da Assembleia Legislativa (ALEPE), Lucas Ramos (PSB) e, secretário executivo de Agricultura Familiar, José Cláudio da Silva, o evento, o repleto de atividades políticas, culturais e festivas, é um marco que serve de norte a Petrolândia.

HISTÓRIA

O assentamento Safra Gregório Ramos foi o primeiro do sertão. Sofreu durante seus anos iniciais diversas ordens de despejo, massacre policial e perseguição de latifundiários. Iniciou com 2000 acampados dos quais foram criados os assentamentos São José do Vale, São Francisco, Maria Gorete, Cruz do Pontal, Ouro Verde e o Safra.
Para conhecer mais visite a página:

PRODUÇÃO AGRÍCOLA

O perímetro é irrigado estando a pouco mais de 6 quilômetros do Rio São Francisco.

Foto: Daniel Filho

Distância do rio, estiagem ou tipo de solo não servem como desculpas. O assentamento tem grande escala de produção frutífera que hoje beneficia cerca de 220 famílias assentadas em um perímetro irrigado de 440 hectares, cada lote com 5 hectares de terra irrigados.
No momento da visita o governo anunciou uma parceria entre estado e município para obra de alargamento e aprofundamento do canal de bombeamento d’água, esse inaugurado em 2013 pelo então governador Eduardo Campos, além do compromisso de destinar emenda parlamentar para o fortalecimento de cooperativismo na área.

Irrigação para todos. Distância não impõe limites. Compromisso social e vontade política, sim.

Foto: Ronald Torres



Foto: Daniel Filho

Foto: Daniel Filho


Foto: Daniel Filho


Foto: Daniel Filho

COMEMORAÇÃO

Ao longo dos três dias de festa de comemoração dos vinte anos de assentamento, houve 

Foto: Daniel Filho

diversos momentos de formação política, no dia da nossa visita especificamente, participamos de um momento de organização política dos assentados durante a manhã, à tarde desfile da Escola Municipal Francesco Mauro com temas que envolviam a agricultura familiar, a luta pela terra e a história do assentamento, à noite ato político com lideranças comunitárias, do MST, municipais e estaduais, e por fim encerramento com forró de Flávio Leandro.

Foto: Ronald Torres

O Blog Gota d’água esteve presente e destaca a percepção que teve do ambiente: Pertencimento e unidade da comunidade.
A festa é vista como marco respeitoso que honra a conquista da terra. O desfile de crianças e jovens é organizado em conjunto participativo: professores, estudantes, pais, lideranças. O espaço é festivo, mas sempre politizado. Com participação efetiva nas formações, palestras, eventos culturais e atos políticos as conquistas são garantidas e ampliadas, a luta é honrada na permanência da memória e a educação das crianças respeita e explora sua individualidade para o bem comum reconhecendo e valorizando sua origem campesina.
“É um processo que combina participação com divisão de tarefas (...) não significa reunir todo mundo para planejar tudo, desde os objetivos da escola até a aula do dia seguinte. Significa, em outras palavras, organizar as instâncias de tomadas de decisões”. (MST, 1995:8).

O QUE PETROLÂNDIA PODE APRENDER

Às margens do Rio São Francisco, a uma distância muito menor que os assentados da SAFRA, ainda há gente com casa abastecida através de carro pipa de forma insuficiente. 

Foto: Daniel Filho. Distância não é problema...

A produção agrícola deveria ser referência e mover nossa economia, mas o município optou por se manter refém de royalties, recursos federais e estaduais. Ainda assim, a maior arrecadação da região, com problemas sociais de cidade miserável. Milhões do FUNDEB e uma educação precária.
Mesmo com uma maioria de origem campesina, nossa população, gradativamente, foi perdendo a essência de pertencimento à terra. Alguns trocaram a luta social por uma falsa segurança contratual trabalhista, outros, 

...quando se tem vontade política e compromisso social.

simplesmente, foram abandonados. Em tempos em que cada vez mais se come, e cada vez menos se planta, reaprender a usar a terra e a produzir alimentos saudáveis, livre de agrotóxicos, para aqueles trabalhadores da Safra é mais que objetivo, é fundamento, porque não se pode pensar em produzir sem cuidar do meio ambiente, nem saciar a fome do povo se não tralharem a terra.
Palavras como mudança, vontade e renovação soam revolucionárias e facilmente figurarão os discursos dos candidatos a “salvadores da pátria” nas eleições municipais de 2016, mas convencer a população que um novo município seja possível precisará ir além das campanhas milionárias e tapinhas nas costas. É preciso aliar discurso à ideologia e atitude.
A semente deverá se dar a partir de plantio simbólico. Semear políticas sérias e objetivas à educação e meio ambiente com desdobramentos em que nossas potencialidades, enfim, sejam utilizadas para sanar nossas necessidades.
O Movimento dos Sem Terra (MST) tem muito a ensinar ao mundo. Então por que não aprender?
Enquanto nos negamos ao aprendizado, viramos espectadores de espetáculos midiáticos medonhos onde a caricata política dos que se creem poderosos se desenrola em torno da disputa de quem é o líder do partido ou de quem está à frente nas pesquisas.
Até aqui está difícil ver quem lidera, mas facilmente podemos ver quem está atrás: o povo petrolandense. 


Texto e fotos contaram com o apoio do parceiro Ronald Torres