segunda-feira, 9 de novembro de 2015

AGORA É QUE SÃO ELAS


O BLOG GOTA D'ÁGUA dá início à campanha #AgoraÉqueSãoElas. Homens que possuem espaço na mídia foram instigados a ficarem como espectadores. Ao invés de escreverem e publicarem textos sobre os direitos das mulheres e questões de gênero promoverão uma ocupação de seu espaço para que elas falem por si. Nossa primeira convidada é uma jovem estudante de Engenharia da Produção: Corina Germino. Boa leitura e uma excelente reflexão sobre questões de gênero.



As mídias sociais deram vozes as pessoas que antes não poderiam ser ouvidas, e isso é bom, por exemplo, no caso das manifestações de 2013, essas mídias foram as principais ferramentas de propagação, todos nos lembramos. Mas quem diria, que em 2015 o "jogo viraria", eu nunca havia visto tanta desinformação e tanta propagação do inútil, inconcebível e assustador. Vimos o caso da menina Valentina, participante do Masterchef, as brincadeiras a respeito das meninas que contaram os assédios que sofreram, e inúmeros outros casos todos os dias. A voz dada às pessoas, libertou também, o que havia demais assustador nelas: o preconceito, racismo, homofobia e os textos ou frases onde mulheres são subjugadas e desrespeitadas.
Aí eu paro, e penso: eu não nasci para ser diminuída, muito menos por ser mulher. Não é um defeito, não sou menos capaz que um homem, de jeito nenhum. Ainda não achei qual a lógica disso tudo, mas acho que já está mais do que provado que nós mulheres somos tão capazes quanto. 
Porém, como uma boa chata que sou, gosto de ir às raízes do problema. Quando iniciamos nosso processo de socialização, lá na infância, aprendemos que determinadas cores são de "meninos", por exemplo o azul, e que rosa é cor de "menina". Nós crescemos com a ideia de que somos "princesas" e que encontraremos nosso "príncipe encantado", nos casaremos e teremos filhos. Os meninos crescem ouvindo que "chorar é coisa de mulherzinha", que eles têm de "pegar" muita mulher, para provar que são "machos". As famílias incutem nas meninas a ideia de que a virgindade é a sua maior virtude, enquanto elas são criadas para "guardarem", os rapazes são induzidos a perdê-las. Porque é lindo dizer a seus amigos que seu filho é um "pegador", mas seria vergonhoso ter uma filha assim. E sabe por quê? Porque se uma mulher fizer isso, ela é logo chamada de puta. Ela não se "deu o respeito". Mas então, o que é se dar o respeito? Se dar o respeito é igual para homens e mulheres? Homens não precisam disso? Gostaria muito que alguém me respondesse, mas que não viesse com o de sempre. Essas expectativas de gêneros que há gerações são impostas pelas famílias, algumas religiões e qualquer outro grupo que pertençamos ao longo do nosso processo de crescimento, ditará de alguma forma o tipo de adulto que seremos, as ideias que vamos propagar e qual a imagem que queremos nós.
 Eu decidi que não preciso de um casamento para me sentir realizada, que ao invés disso, escolho meu tão sonhado diploma, que não precisarei de um marido para me sustentar pois tenho plenas condições de me sustentar com o suor do meu trabalho. E não, meu lugar não é no fogão. Meu lugar é onde eu quiser estar. É essa a imagem que eu quero de mim, e que espero que todas as mulheres tenham, que todas nós possamos escolher o que vestir sem ser abordada por alguém na rua, que tenhamos plenos poderes sobre o que fazer com o nosso corpo, que isso nos seja dado, quero para todas salários iguais aos dos homens que exercem a mesma função, que não sejamos “culpadas” quando na verdade somos vítimas, desejo que não nos vejamos competidoras da atenção de um homem. Mas quero também, que os rapazes sejam soltos dessa “prisão” chamada masculinidade, para que não nos prendam na do “machismo”. Que ensinemos nossos filhos, irmãos, sobrinhos a tratarem as mulheres com respeito, e não como um pedaço de carne a ser “comido”.
Não me recordo a primeira vez em que ouvi o termo "feminista", e nem sei se quando o ouvi fui atrás de seu significado, mas sempre quando eu ouvia alguém falar esse termo, vinha junto dele uma cara de desaprovação, até por parte de outras mulheres. Nunca li até hoje livros de escritoras feministas, na verdade, só vim conhecer uma delas no terceiro ano do ensino médio, através de uma professora por quem até hoje nutro muita admiração, respeito e carinho, Suemys Pansani. Ela me ensinou que ser feminista não é ser radical, odiar os homens, ou qualquer outro clichê que pensem, e que eu não precisaria ler todos os livros de Simone de Beauvoir para ser uma, eu só teria de ter consciência de que ser mulher não é ser submissa, ela me ensinou a enxergar o mundo ao meu redor e ver como ainda há desigualdade de gênero. E a ela eu agradeço imensamente, torço para que todas tenham as suas “Suemys”. “Su”, eu peço: não desista, a luta é difícil e cansativa, mas precisamos de você!


Corina Germino, 21 anos, é natural de Tacaratu (PE). Cursa Engenharia de Produção na Universidade Tiradentes em Aracaju (SE), cidade em que mora atualmente. 
“Desde muito cedo questionei aquilo que de certa forma eu desconhecia, então eu sempre busquei me informar a respeito de certos assuntos, e com isso acabei adquirindo uma certa paixão pela leitura. Passei parte da minha infância e adolescência residindo em cidades diferentes, onde conheci várias pessoas e fiz algumas amizades, que, de certa forma, contribuíram bastante para o que eu me tornei hoje, desde o que seria correto fazer, observando ações que, ao meu ver, eram dignas de respeito, até o que eu jamais faria ou desejaria a qualquer pessoa.”