quinta-feira, 23 de agosto de 2018

ELEIÇÕES 2018 – LULA É O NOVO GETÚLIO?

Montagem: Varal da Laura



A historiadora Heloisa Starling afirma que se se confirmar a impugnação da candidatura Lula, o ex-presidente pode se equiparar a Getúlio Vargas no quesito poder de mobilização popular, transferindo grande quantidade de votos para seu vice Fernando Haddad; em entrevista concedida ao jornal Folha de S. Paulo. Sobre a estratégia petista em manter a candidatura de Lula, ela responde:

“É um plano que mantém Lula nas manchetes, dá a ele alta visibilidade, mas é de alto risco. O que PT e Lula vão fazer no dia seguinte à eleição se a estratégia der errado? Se olhar para a história do Brasil, há uma situação parecida. Quando Getúlio Vargas renuncia para não ser deposto por seus ministros militares, no final do Estado Novo [1945], ele se isola. É quase como se estivesse exilado em São Borja (RS). Aí vem a campanha eleitoral, e Vargas tem dificuldade de decidir quem apoiar. Acaba escolhendo Dutra, que é do partido dele, o PSD. Faltava meia hora para o encerramento do último comício do Dutra quando chegou ao palanque um emissário de Vargas, com uma declaração de apoio ao Dutra. Ainda restavam cinco dias de campanha, tempo suficiente para inundarem o país de cartazes, com a foto de Vargas e um texto direto: ‘Ele disse: Vote em Dutra!’. A rigor, não precisava nem da foto: ‘Ele’, com maiúscula, todo mundo sabia quem era. O Dutra ganha. Foi a única vez na história do Brasil em que se conseguiu fazer transferência de votos em um espaço de tempo curto com tanta competência. A população era menor, mas, guardadas as devidas proporções, há semelhança com o alto risco do Lula. A diferença é que Vargas estava em um autoexílio, e Lula está preso. Conseguirá transferir tantos votos para o Haddad? Essas eleições vão mostrar se o Lula está no mesmo patamar de Vargas (...)

Montagem: Blog do Briguilino

Na capacidade de mobilizar a sociedade e de ser uma liderança política de magnitude. Embora o Vargas não estivesse preso, estava em situação de isolamento, afastado da cena principal. Não são situações iguais, mas há elementos que são análogos ao que estamos vivendo hoje. Uma característica incomum desta eleição é a indefinição. A um mês e meio do primeiro turno, quatro ou cinco candidatos aparecem com chances razoáveis de avançar para o segundo turno. Além disso, o percentual de eleitores indefinidos é alto. Lembra-se de momento semelhante na história da democracia brasileira? Não. Fala-se muito da primeira eleição depois da ditadura, em 1989, mas existem diferenças: eram muitos candidatos, mas não havia indefinição, e sim disputa política. As pessoas diziam que iriam votar em Lula, Ulysses, Brizola... Havia o eleitor envergonhado: dizia-se indeciso, mas ia votar no Collor. E não existia esse traço totalitário de rejeição à política. A sociedade debatia opções em torno do conjunto de candidatos. Hoje, ao lado dessa profunda indefinição, é preciso considerar que talvez o país nunca tenha visto um grupo de candidatos tão inexpressivos como lideranças políticas.”

Na primeira pesquisa estimulada pelo Datafolha desde o registro das 13 candidaturas à presidência, Lula aparece com 39% das intenções de votos.

Imagem: YouTube

HELOISA MURGEL STARLING, nasceu em 1956. Historiadora e cientista política é professora titular da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). É autora de, entre outros, Os senhores das gerais (1986), Lembranças do Brasil (1999), Brasil: uma biografia (2015), com Lilia Moritz Schwarcz, e República e democracia: Impasses do Brasil contemporâneo (2017).

Entrevista enviada pela secretaria geral do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST)